Mora um rei na barriga de cada torcedor.

Para o rei que nos aluga o estômago, há uma verdade indubitável: o nosso time é aquele que detêm os melhores homens, os mais corajosos, os legítimos representantes do bom futebol, os que melhor sabem perder e os únicos que merecem a vitória ontem, hoje e sempre.

Vivo para repetir: Dentre as coisas menos importantes, o futebol é a mais importante. A frase não é minha, mas acabou por se tornar um mantra para mim, um mantra que não é outra coisa senão uma ode à inutilidade.

Futebol é um troço inútil, dizia meu pai. Ele estava certo, mas o velho nunca atentou para o óbvio: metade da vida a gente não consegue explicar, e a outra metade é simplesmente inútil.

Entre o inexplicável e o inútil, reside o futebol.

Se as palavras fossem cores, e se pudéssemos misturá-las, e se do amarelo e do azul nasce o verde, da mistura entre o inexplicável e o inútil, resultaria o sobrenatural, ou por outra: o imponderável.

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Primeiro o garoto se apaixona pelo time, pelos jogadores que são divindades encarnadas. Com as angústias e as vitórias, entre um escanteio e outro, nasce o amor – porque o amor precisa de tempo e dor para amadurecer. Amar um clube é amar a forma de vida que escolhemos sobre a Terra. Amar um clube é esquecer, por noventa minutos, um pouco de si mesmo. Esquece-te a ti mesmo, nos diria o Oráculo de Delfos, se na Grécia antiga houvesse futebol.

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O torcedor, pasmem, é mais importante que a bola.

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Dentro de campo, a mentira só existe para os incrédulos. E os incrédulos, hora ou outra, serão todos convertidos. Conheci homens que perderam a fé durante os noventa minutos e outros que se fizeram Deuses – os que perderam a fé, desesperados, saíram à cata de novos Deuses; e os que se fizeram Deuses, entediados, tornaram à condição humana.

Não há aposentadoria para o torcedor fanático – estar morto nunca foi desculpa. No entanto, aqui vai um conselho: evitem os estádios, há perigo de morte.

Ontem, um desses homens autossuficientes, austeros e inteligentíssimos (até onde sei, leitor de Sartre) , me perguntou:

– E o futebol brasileiro, como anda?

Tomei um gole de cerveja barata, mirei o discípulo de Sartre nos olhos e mui encabuladamente tentei explicar-lhe:
Demolimos os gigantes de pedra e construímos espetaculosas arenas de aço chinês. Calçamos os campinhos de terra e apequenamos o Maracanã – nossa mania de grandeza está nos tirando tudo quanto um dia foi grande. Transformamos até o velho Pacaembu em elefante branco; os campeonatos estaduais, esta alucinação coletiva, ganha pão de federações espúrias, enfeitam o velório open bar do país que um dia foi de Leônidas, Zizinho, Didi, Gerson, Zico etc. etc.

A incompetência, novamente, venceu o talento. A ganancia, maldita, atropela o passado e manda a conta. Antes de 58 e da Jules Rimet, “vira-latas complexados”, lutávamos contra o impossível – sabíamos, ao menos, que éramos nossos únicos inimigos. Com a vantagem: lutar contra o impossível é sempre mais fácil com Garrincha aberto pela direita.

Contudo, em verdade vos digo: aquele que ama de verdade tem o bônus da ilusão. A ilusão, por sua vez, é íntima da esperança. Sendo aquele que vive a ilusão cotidiana e ama o futebol nos bairros, bares, estádios, sei que a esperança nem sempre é a última a morrer, mas reaparece, milagrosamente, domingo às quatro horas. Reaparece, faça chuva ou sol, quarta-feira à noite. Dá o ar da graça nas peladas e vive infatigavelmente no coração dos garotos que ainda dormem abraçados a bola.

Quando criança, eu dormia abraçado a bola. Freud estava certo: há coisas que nos passam na infância e vão conosco ao caixão. Freud não gostava de futebol. Talvez por isso tivesse tanto tempo livre para analisar os sonhos alheios e pensar sobre sexo. Novamente, Freud estava certo.